Fiolo - 1968

JOSÉ SYLVIO FIOLO

No sul-americano de 1966, em Lima, surgiu uma nova esperança para a natação brasileira. Lá de Campinas, ainda com 15 anos de idade, apareceu José Sylvio Fiolo para se tornar o melhor peitista isolado do continente e um dos maiores nomes da natação brasileira de todos os tempos, fazendo jus a integrar o panteão do Hall da Fama da Natação Brasileira.

Segundo lugar no Campeonato Paulista de Natação - março de 1964. Em pé - Tonhão, Farid, Alvaro Pires, João Agostinho. De cócoras, Norio Ohata, Fiolo e Foca - foto postada por José Fiolo no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Segundo lugar no Campeonato Paulista de Natação – março de 1964. Em pé – Tonhão, Farid, Alvaro Pires, João Agostinho. De cócoras, Norio Ohata, Fiolo e Foca – foto postada por José Fiolo no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Em junho de 66, ele quebrou o recorde sul-americano dos 100m marcando 1m11s0. Nos doze meses seguintes ele esfacelou a marca, culminando com sua participação no Pan de 1967, em Winnipeg, quando nadou em 1m07s5 e levou um dos seus dois ouros individuais, os primeiros títulos brasileiros de Pan desde Tetsuo Okamoto, em 1951. No revezamento 4×100 4 estilos, que conquistou a medalha de bronze nesse Pan, Fiolo nadou para a incrível marca de 1m06s6, 1 décimo de segundo abaixo do recorde mundial do soviético Vladimir Kozinski.

Revezamento 4x100 4 estilos, medalha de ronze nos Jogos Panamericanos de Winnipeg em 1967 - Waldyr M. Ramos (costas), José Sylvio Fiolo (peito), João Reinaldo Costa Lima Neto (borboleta) e Ilson Asturiano (livre) - recorte de jornal postado por Sandra Novaes Asturiano no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Revezamento 4×100 4 estilos, medalha de bronze nos Jogos Panamericanos de Winnipeg em 1967 – Waldyr M. Ramos (costas), José Sylvio Fiolo (peito), João Reinaldo Costa Lima Neto (borboleta) e Ilson Asturiano (livre) – recorte de jornal postado por Sandra Novaes Asturiano no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

O Recorde Mundial

Em outubro de 1967, a revista Swimming World publicou um longo artigo sobre o Fiolo e seu estilo inovador. Suas braçadas e pernadas fortes e mais longas contrastavam com a técnica predominante do estilo acelerado do americano Jastremski. Seu técnico no Botafogo, Roberto Pavel afirmou que o estilo de Fiolo misturava a braçada russa com a pernada americana, mesclando a técnica de nado das grandes escolas de natação da época. A lenda da época era que ele rasgava, com um só movimento das mãos, a lista telefônica inteira da cidade de São Paulo.

No Sul-Americano, em fevereiro de 68, no Fluminense, ele baixou seu recorde para 1m06s8, pondo uma frente impensável de quatro segundos no segundo colocado. Com o resultado, seu técnico Roberto Pavel acreditava que Fiolo poderia superar a melhor marca mundial dos 100m peito. Ao término da competição, solicitou aos juízes da FINA que ficassem mais alguns dias na cidade para que pudessem assistir e regulamentar uma tentativa de recorde de Fiolo.

Quatro dias depois, veio o recorde mundial, na piscina do Clube Guanabara. As arquibancadas ficaram lotadas para torcer por mais um recorde mundial naquela “mágica” piscina. O recorde anterior era do soviético Vladimir Kozinski, com 1m06s7, estabelecido no dia 8 de novembro de 1967 em Leningrado. Velocista nato, Fiolo tinha a tendência de nadar muito forte a primeira metade da prova. “Meu técnico então decidiu pela tática de passar os primeiros cinquenta metros mais lento para ter melhor final de prova.” Seguindo a estratégia com precisão, virou a primeira metade em 31s4 e teve forças para completar a prova em 1min06s4. Fiolo nadou sozinho no dia 19 de fevereiro de 1968 para a incrível marca de 1m06s4, para uma ruidosa comemoração da enorme torcida e para entrar na galeria dos recordistas mundiais dos 100 metros nado peito. Até então, os recordistas eram todos americanos ou soviéticos, apenas com a rápida exceção do alemão Gunter Tittes, que deteve o recorde por 23 dias em julho de 1961. O recorde de Fiolo durou 2 meses e foi quebrado por Nicolai Pankin, em abril de 1968, com o tempo de 1m06s2.

Equipe de natação do Botafogo, treinada por Pavel

Equipe de natação do Botafogo, treinada por Roberto Pavel – foto postada por Vera Lucia Figueiredo no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

México

Fiolo chegou ao México, em outubro de 68, como um dos favoritos, senão o favorito, para a prova dos 100m peito. Ele tinha também um dos melhores tempos dos 200m peito. Mas como no caso de seu contemporâneo, Mark Spitz, outra estrela de Winnipeg, a realidade ficou a desejar. Nos 100m, apesar de ter crescido das eliminatórias até as finais, passando pelas semis, no final veio um quarto lugar. Na frente dele, por um décimo, a dupla de russos Kosinsky e Pankin, que pegaram a prata e bronze respectivamente. Os três tinham detido, em meses diferentes, o recorde mundial da prova nos doze meses que antecederam aquela olimpíada. Fiolo, o mais forte velocista e talvez o de menor capacidade aeróbica, liderou a prova até os 75 metros.

No vídeo temos a filmagem da prova dos 100 metros nado peito nos Jogos Olímpicos de 1968 na Cidade do México:

Na prova dos 200m peito, assim como aconteceu com Spitz nos 200m borboleta, talvez sob o efeito da frustração da prova dos 100m, seu resultado foi catastrófico, com uma piora de mais de dez segundos e a não classificação para as finais. A prova foi vencida pelo mexicano Felipe Muñoz, “El Tíbio”, que trouxe as arquibancadas abaixo conquistando o primeiro ouro, em todos os esportes, para os anfitriões. Um ano antes, em Winnipeg, Fiolo tinha deixado Muñoz engolindo marola, quase 10 segundos atrás. No revezamento 4x100m medley, Fiolo teve a melhor parcial de todos os nadadores de peito, nadando um segundo abaixo de seu tempo na final da prova individual. Mesmo assim, não pegamos final nesta prova e, como de praxe, em nenhuma outra.

Entre 1968 e 1972, a natação brasileira cresceu em qualidade de base mas não em talento de ponta. Fiolo e Aranha, nosso melhor velocista no livre, foram morar e treinar nos Estados Unidos. Fiolo lutava contra a desmotivação, oriunda da falta de adversários no Brasil. Sua fama era de quem gostava de dar seus tiros de 25m na ensolarada piscina suspensa do Mourisco, mas escapava da rotina entediante dos treinos diários longos. O peito evoluiu bastante naqueles quatro anos intra-olímpicos, principalmente a capacidade aeróbica e os tempos de 200 metros, mais do que nossa estrela maior progrediu.

Troféu Brasil no Rio de Janeiro, com o Botafogo campeão em 1971

Troféu Brasil no Rio de Janeiro, com o Botafogo campeão em 1971 – Foto postada por Jiro Hashizume no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Munique

Para Munique, levamos nossa maior equipe de nadadores da história até então. Depois de vinte anos, o lado feminino voltou a fazer parte do escrete, representado pelas cariocas Lucy Burly e Cristina Bassani Teixeira, e pela mocoquense Isabel Guerra. Na última seletiva no Mourisco, o conselheiro técnico da CBD, Júlio Delamare, ajudou a formar nosso time de nadadoras. O garoto Rômulo Arantes, de 15 anos mal completados, surpreendeu nesta última competição, foi convocado, e começou seu reinado de maior costista do país pela década seguinte afora. Nossa seleção foi pra Salvador, para os preparativos finais e para fugir das águas não aquecidas das piscinas do sudeste no inverno.

Na Alemanha, apesar da equipe mais numerosa, voltamos a depender de Fiolo para resultados potenciais de destaque. José Aranha, nos 100m livre, e Sérgio Waissman, nos 100m borboleta, não fizeram feio, passando para, e crescendo nas semis. Mas final e chance de medalha era só com o peitista. Enquanto o mundo assistia o maior show natatório já visto, proporcionado por Mark Spitz, a outra estrela que despontou em Winnipeg, em 1967, Fiolo fez o que podia. Nas semis, com o tempo de 1m05s99, recorde sul-americano que durou até 1982, quando foi batido por Luiz Francisco de Carvalho no mundial de Guayaquil. Ele se classificou em quarto lugar no geral, alimentando nossas esperanças de uma medalha. Mas numa final apertada no dia seguinte, ele caiu duas posições e terminou em sexto lugar. A prova foi vencida, com recorde mundial, pelo japonês Nobutaka Taguchi, que tinha sido mais lento que Fiolo, e depois desclassificado, quatro anos antes no México.

Foto de Luiz Carvalho postada no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Foto de Luiz Carvalho postada no Álbum das Gerações da Natação Brasileira. Luiz Carvalho está com algumas falhas no cabelo, pois era calouro nesses jogos panamericanos e teve o cabelo raspado. Em 1982 Luiz Carvalho superou o recorde sulamericano de Fiolo, estabelecido em 1972.

Confira a prova de Munique no link abaixo. Repare a saída a la antiga de Fiolo, na raia 6, com a rotação inteira dos braços antes do pulo, ainda em forma quase chapada. Depois de sair mal, ele rapidamente parte pra liderança, emparelhando com o japonês, antes dos 25 metros. Mas seu estilo de força e pouca capacidade aeróbica paga seu preço no final.

Na prova dos 200m, apesar de ter nadado perto do seu melhor, ele comprovou que já tinha ficado muito pra trás dos tempos líderes da prova. Winnipeg tinha sido cinco anos antes e, em Munique, Fiolo passou longe da final. Um dos melhores momentos da natação brasileira em Munique, aqueles que surpreenderam as expectativas, e só foram possíveis pelo crescimento do conjunto da natação brasileira, foi a prova de revezamento 4x100m medley, onde todas as parciais foram abaixo do recorde brasileiro da respectiva prova individual. Rominho entregou em oitavo, estabelecendo novo recorde sul-americano para os 100m costas. Fiolo e Waissman não conseguiram sair da lanterna, mas Aranha fechou com 52s09, quase um segundo e meio abaixo do recorde sul-americano dos 100m livre (53s40 do Ruy T. A. De Oliveira), e ultrapassou Japão, Inglaterra e Hungria, terminando na quinta colocação e melhorando em 5 segundos o recorde sul-americano da prova.

Com a brilhante carreira, um recorde mundial de longa, dois títulos panamericanos e ficando muito próximo da sonhada medalha olímpica, Fiolo se consagra como o quinto homenageado do HFNB.

Certificado do Hall da Fama - Fiolo

Alguns links com dados adicionais sobre esse grande atleta homenageado pelo Hall da Fama da Natação Brasileira:

Artigo de Pedro Junqueira no site da BestSwimming:  http://www.bestswimming.com.br/beijing2008/conteudo.php?id=8946

Reportagem do programa Memória do Esporte Brasileiro da Rede Record: http://esportes.r7.com/esporte-fantastico/memoria-esporte-brasileiro/noticias/memoria-do-esporte-brasileiro-uma-derrota-inesperada-marcou-a-carreira-do-jovem-nadador-jose-silvio-fiolo-nas-olimpiadas-de-1968/

9 Comments on “JOSÉ SYLVIO FIOLO

  1. Meus parabéns, Fiolo! Você é um campeão. orgulhe-se da sua vida!!!

  2. Super campeão!!! Parabéns por tantas conquistas!

  3. Tive o privilégio de conhecer, conviver e me tornar amigo deste campeão na Austrália. Lá convivemos de 1989 a 1994, e nossas famílias se tornaram amigas. Parabéns amigo Fiolo!

  4. FIOLO, sei stato un GRANDE NUOTARORE ed io sono orgoglioso di essere un suo AMICO!

  5. Muito legal assistir as duas finais olímpicas.
    Não sabia que o tempo de Winnipeg seria suficiente para o ouro no México.
    Essa prova de 68, provavelmente foi a final olímpica de 100m com maior alternância de liderança na história. Incrível como os atletas que chegaram ao pódio estavam atrás logo após o parcial de 50m.

    Como atleta, apesar de não ser peitista, o nome do Fiolo sempre foi uma referência e era muito legal ter a presença dele nos campeonatos brasileiros até sua mudança para a Austrália.

    Meu respeito e admiração a esse atleta fantástico. Parabéns por sua carreira, Fiolo!

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